Roberto Carlos tem visão “autoritária” e “patrimonialista”, diz biógrafo

De perfil discreto, Paulo César de Araújo sentou num dos últimos lugares do auditório do Nord Luxxor Hotel, no Cabo Branco, enquanto aguardava o início do último debate do Fest Aruanda, na última quarta-feira (12). A mesa discutiu as possibilidades e limites das cinebiografias de artistas e gêneros musicais brasileiros, e destacou a importância do cineasta Roberto Farias, morto em maio desse ano, que dirigiu a trilogia de Roberto Carlos, quando o rei vivia o auge da Jovem Guarda: “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura” (1968); “Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa” (1970); e “Roberto Carlos a 300 Quilômetros por Hora” (1971).

Três anos atrás, Paulo César esteve sentado no banco dos réus. Depois de passar por todas as instâncias judiciais, o processo movido por Roberto Carlos contra o biógrafo chegou ao Supremo Tribunal Federal e foi julgado em 15 de junho de 2015. A batalha jurídica entre os dois começou em 2006, quando Paulo César lançou pela editora Planeta a biografia “Roberto Carlos em Detalhes”. O cantor reivindicava a proibição do livro justificando a defesa do seu patrimônio: a sua história pessoal. Ele exigia ainda a prisão de Paulo César por dois anos e o pagamento de uma indenização milionária. O biógrafo diz que foi tratado como criminoso e atribui à visão patrimonialista e autoritária de Roberto Carlos a postura que o rei adotou no embate jurídico. O julgamento culminou com a vitória de Paulo César e a liberação de biografias e cinebiografias não autorizadas. Mesmo com toda essa situação, Paulo César diz não guardar mágoa do então ídolo. Em 2014, ele lançou o livro “O réu e o rei: minha história com Roberto Carlos em detalhes”, em que conta a polêmica proibição.

Veja a seguir a entrevista com Paulo César de Araújo, biógrafo de Roberto Carlos.

Ao escrever uma biografia não autorizada de Roberto Carlos, você sabia dos riscos de ser processado. Em determinado momento, você disse que foi tratado como criminoso. Por que você decidiu prosseguir?
Ao decidir escrever a biografia do Roberto, eu confesso a você que não fiquei preocupado com possíveis consequências, possíveis reações do Roberto Carlos. Por quê? Porque eu vivo e vivia desde a época em que eu comecei a pesquisa, nos anos 90, num Estado Democrático de Direito. A Constituição Cidadã, promulgada em 1988, era recente. E o parágrafo 5º é claro: é livre a manifestação intelectual, artística, científica, jornalística, independentemente de censura ou licença. Então, eu identifiquei uma lacuna na historiografia – não tinha nenhum livro que explicasse o fenômeno Roberto – vivendo num Estado Democrático de Direito, eu, como historiador, me propus a fazer o quê? Pesquisar e escrever sobre personagens, fatos históricos…. Então, se o Roberto ia gostar, se não ia gostar, se ele iria entrar na justiça… eu não pensei nisso, não me preocupei com isso. Por isso que eu decidi ir em frente, sabendo que haveria riscos. Enfim, a história estava aberta; por isso que eu tomei a decisão e fui em frente.

Você separa o ídolo Roberto Carlos do censor Roberto Carlos?
No meu segundo livro, “O Réu e o Rei”, eu acho que isso fica muito claro. É uma obra na qual eu analiso a produção musical do Roberto, que está na minha memória afetiva, na memória afetiva de milhões de brasileiros, e eu não acho que pelo fato de ele ter me processado, canções como ‘Detalhes’, ‘As curvas da estrada de Santos’, ficaram ruins! Não acho que os grandes discos dele deixaram de ser bons porque ele me processou. Então, nesse sentido, no livro ‘O réu e o rei’, eu coloco isso: eu continuo exaltando a obra dele, a importância dessa obra e a sua singularidade, seu impacto na cultura brasileira, mas eu não posso passar a mão na cabeça do censor Roberto Carlos, do cidadão Roberto Carlos, que tem uma visão patrimonialista, autoritária, sobre a cultura, sobre a produção de memórias, de livros. Então, eu separo. Exalto a obra no que ela tem para ser exaltada e, ao mesmo tempo, eu critico o censor Roberto Carlos e suas contradições, suas limitações, aliás, como todo ser humano… suas áreas cinzentas. Isso, na verdade, é o trabalho de todo biógrafo. Não existe ninguém perfeito, não existe ninguém totalmente ruim, e o nosso trabalho é analisar os pontos positivos e negativos, o que vai dar a complexidade, a totalidade, do personagem.

Roberto Carlos sempre foi tratado como um ídolo, o Rei inconteste. Você acha que contribuiu para a humanização da figura do rei? Os fãs agora conhecem de fato Roberto Carlos, além do mito?
Sim, é sempre importante isso. Mas também é importante lembrar que o meu livro não esgota o tema. É a minha versão sobre Roberto Carlos, o que não impede que outros futuros biógrafos – e eu não tenho dúvida que, se não agora, daqui a 30, 40 [anos], existirão várias biografias sobre Roberto Carlos. Daqui a 100 anos…. Estará saindo um livro no centenário da morte, do nascimento… e esses autores do futuro vão analisar o Roberto sob os mais diversos aspectos. É dessa diversidade de que o leitor vai perceber a complexidade do personagem, de todo ser humano. Sem dúvida o meu livro contribuiu para isso: saiu daquela ideia do Rei, do cantor que só sorri, faz música para Jesus, paz e amor, e colocou um Roberto mais humano, com suas limitações, suas contradições… acho que isso enriquece o personagem. Humaniza, sem dúvida.

O seu livro “O Réu e o Rei” tem alguma dose de mágoa de Roberto Carlos?
Não. Aliás, quem tem falado isso são os críticos, os leitores. Eu não tenho controle sobre isso; eu podia ter feito o livro e os leitores falarem: ‘caramba, como você está ressentido!’ O que a crítica tem observado, e vários leitores, é: ‘Paulo como você, tendo passado tudo que você passou, você não transmite em ‘O réu e o rei’ nenhum ressentimento, nenhuma mágoa?’ Porque é isso mesmo! No meu coração eu não tenho por Roberto nenhuma mágoa assim… Até porque, como eu disse, ele é meu objeto de estudo; eu sou um historiador, não posso ficar brigando com meu objeto de estudo. Ele não era meu amigo pessoal, eu não tive relações pessoais. Eu separo a obra da pessoa. Eu sou fã, mas eu nunca me identifiquei com as ideias do Roberto Carlos, por exemplo: eu sou agnóstico, ele é católico; ele é apolítico, conservador, eu sou de esquerda; ele gosta de carro, eu nunca dirigi; ele é Vasco, eu sou Flamengo… eu nunca tive, na verdade, nenhuma identificação com o cidadão Roberto Carlos. Eu gosto do cantor, compositor. Eu acho que isso tudo contribuiu para essa visão minha. Mas, como biógrafo e estudioso da trajetória dele [devo] compreender as limitações dele, as contradições. Nesse sentido, isso me deixou mais tranquilo também: tendo encarado essa barra e não ter tomado como algo pessoal contra mim… ele não foi contra mim! Ele expressou uma visão autoritária e excludente que está dentro dele. Isso é problema dele, não é problema meu. Eu apenas analiso, mais especificamente no segundo livro, ‘O réu e o rei’.

Você acha que a tentativa de proibição por parte de Roberto Carlos do livro, mancha a biografia dele?
Sim, claro. Esse episódio é, certamente, um dos mais negativos da trajetória do Roberto. Ele nunca foi tão criticado, nunca teve tanta oposição de vários setores da sociedade. Sem dúvida, teria sido melhor para ele que, nessa altura da vida, ele tivesse uma preocupação maior com a questão a Memória, que ele tivesse uma tolerância maior com a questão das biografias não autorizadas… teria sido melhor para ele. Mas, infelizmente, ele não teve essa postura. Ele veio com tudo, porque ele não pedia só a proibição do livro, ele pedia a minha prisão por mais de dois anos, indenização, enfim… ele veio com tudo! Isso, aliás, foi o que mais surpreendeu a todos: não só o questionamento, mas a violência dos dois processos contra mim, me tratando como criminoso, quando ele disse: ‘esse autor se apropriou do meu patrimônio e usou em seu próprio benefício’; é a visão patrimonialista da história. Ele acredita que, assim como tem um automóvel, um imóvel, ele teria a história, que seria uma propriedade particular dele; e, crendo nisso, ele tomou isso como um assalto a algo pessoal dele. Teria sido melhor que ele não pensasse assim, mas pensou e agiu. E isso hoje é história. Qualquer biografia do Roberto séria, independente, terá que contar esse caso, cada um com a sua versão, enfatizando um aspecto ou outro.

A justificativa dele é que perderia dinheiro quando fosse lançar a biografia oficial?
É, os próprios advogados alegam isso no processo. Eles alegam que tirou a originalidade, que o livro do Roberto vai vender menos, quando ele fizer, porque o meu já saiu na frente. Enfim, tem todas essas alegações, mas o que foi predominante para essa ação foi a visão patrimonialista dele; achar que a história é um patrimônio. Por isso que eu acho que ele nunca leu o livro. Ele não queria uma biografia não autorizada; ele não queria que ninguém contasse a sua história, que ele acredita como patrimônio particular, sem as bênçãos dele. Para ele pouco importa o que tinha no livro, mesmo que fosse positivo, como, de fato, é. Mesmo que humanizasse, mesmo que revelasse aspectos positivos, ele não queria. Ele não queria elogio sem autorização. É isso! É uma figura obsessiva-compulsiva, nós temos que entender isso também. Não é só uma visão patrimonialista, conservadora: ele sofre de Transtorno Obsessivo Compulsivo; e uma das características do TOC é a obsessão de controlar tudo em torno de si. Ele tem isso e isso contribuiu para a reação dele contra o livro. De repente ele viu como se o mundo estivesse fugindo aos pés dele: ‘como é que pode fazer um livro contando tudo sobre a minha vida e eu não autorizei, não escolhi a capa, não escolhi a letra, não escolhi a data de lançamento?’ Isso para ele, com o TOC misturado com a visão patrimonialista, deu esse pacote completo. Por isso que ele veio com tudo contra mim. Quando ele fez ‘Eu sou terrível’, ele não estava brincando…

Como você viu o movimento Procure Saber, encabeçado por personalidades como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paula Lavigne e com apoio de Roberto? Caetano cantava que era proibido proibir…
Pois é, isso aí chocou a nós todos, porque enquanto era Roberto defendendo essa visão patrimonialista da história, todo mundo de certa forma já entendia: ele sofria de TOC, sempre foi um conservador, nunca lutou contra a ditadura, nunca levantou bandeira em favor das liberdades públicas… então, isso combinava com o personagem, embora todo mundo criticasse. Ele já deveria ter aprendido. Agora, quando figuras como Caetano, Chico, Gil, Milton, Marisa Monte, Djavan, Jorge Ben Jor, a nata da MPB reunida naquele famigerado grupo que endossou isso, comprou essa pauta, isso nos chocou a todos; e a reação da sociedade foi dura com esse grupo naquele momento. Isso não surpreendeu só a mim, surpreendeu a todo mundo. Felizmente eles recuaram, perceberam o equívoco, não foram à frente, deixaram Roberto sozinho no dia do julgamento do STF – Roberto estava sozinho lá com seu advogado, porque eles perceberam que embarcaram numa furada, porque era incompatível a imagem de Chico e Caetano com a causa de Roberto Carlos. Foi uma grande confusão. Mas isso também é história, não adianta agora eles quererem apagar isso. Não dá. Qualquer biografia independente que será feita no futuro sobre Chico, sobre Gil, sobre Caetano, sobre Jorge Ben, sobre Djavan, vai contar esse episódio. Nesse momento, esses artistas tomaram uma posição retrógrada, adotaram uma visão patrimonialista da história, defenderam a censura de livros no Brasil, seguindo os passos do seu mentor Roberto Carlos, seu guia, seu líder. Ele era o líder dessa causa no Brasil e eles aderiram.

Como você recebeu a decisão do STF que liberou as biografias não autorizadas e como você vê a legislação brasileira sobre o tema?
Na verdade, o que o STF fez foi fazer uma leitura à luz da Constituição de um artigo do Código Civil. O meu livro foi proibido e outras biografias estavam sendo proibidas baseado numa interpretação que juízes de primeira instância faziam de um artigo do Código Civil, que era incompatível com o artigo 5º da Constituição. Então, o STF, no dia 15 de junho de 2015, estabeleceu que não pode haver essa interpretação. A nossa Constituição é clara em defesa das liberdades: da liberdade de escrever, de pesquisar, de biografar nossos personagens, nossos ídolos. O STF esclareceu, colocou em pratos limpos. Não mudou a lei, ele apenas fez uma leitura à luz da Constituição, dizendo que era incompatível com ela a censura à livros. Claro, se alguém caluniar alguém, se pode recorrer à justiça, processar o autor… isso é outra coisa. Agora, dizer que a minha história é um patrimônio meu, isso, na interpretação do STF, não pode. Isso dá mais segurança jurídica. Como disse a Ministra Carmem Lúcia naquele dia histórico: ‘cala boca já morreu’.

Você veio a João Pessoa participar do Fest Aruanda, na mesa que aborda a trajetória de Roberto Farias, um dos homenageados dessa edição, que foi o diretor responsável pela trilogia que Roberto Carlos protagonizou no cinema. Qual é a sua impressão sobre o festival e sobre a pegada musical desse ano?
Maravilhoso! Eu estou aqui encantado porque costumo participar sempre de eventos literários, nunca tinha participado como integrante de uma mesa de debates num festival de cinema, e principalmente eu que gosto tanto de cinema, amo tanto. Acho importante o debate sobre os limites, as possibilidades de cinebiografias musicais no Brasil e como isso se expandiu a partir dos anos 2000. Aliás, uma das razões para a ação do Procure Saber… eles não estavam preocupados só comigo; eles estavam preocupados com o audiovisual, com os filmes que são baseados em livros. Quando eles quiseram controlar o limite de biografar alguém, só se fosse autorizado, eles estavam pensando na produção desses filmes, dessas cinebiografias. A manifestação do STF – é importante lembrar – foi também em relação às cinebiografias. Eu estava no dia do julgamento e os juízes foram claros: não é preciso pedir autorização de nenhum personagem da história para fazer filme, livro, peça de teatro. 
Foi muito bom participar [do debate], inclusive com depoimentos para a história. Eu ficava ouvindo Jean-Claude Bernardet [crítico de cinema], por exemplo, que fez o primeiro roteiro do filme do Roberto Carlos. Ele está falando para a história naquela mesa, não só para a plateia. No caso do Roberto Farias, a importância é ainda maior pelo fato de ele ter sido o responsável pela trilogia do Roberto Carlos no cinema. Foi o único diretor que conseguiu deixar Roberto lá, plantado, gravando. Conseguiu fazer três filmes… é um feito! Isso só foi possível pelo temperamento do Roberto Farias, pela paciência, inteligência dele… qualquer outro diretor teria perdido a paciência, teria desistido no caminho, como o [Luís Sérgio] Person desistiu. O Person acabou desistindo do que seria o primeiro filme do Roberto. Mas o Roberto Farias fez três filmes importantes, que são documentos da cultura brasileira, até pela falta de memória, pelo pouco caso com a preservação de imagens. Muita coisa se perdeu nos incêndios da TV Record… não temos nada praticamente do Roberto Carlos. O que temos de mais importante são exatamente as imagens e o que foi gravado para esses três filmes de uma fase importante do Roberto.

Quais os seus próximos projetos? Tem interesse em biografar mais algum artista? 
Eu tenho vários projetos, não especificamente um personagem. Vou fazer um livro sobre a moderna MPB, da Bossa Nova para cá, contando minibiografias de todos esses principais personagens: Chico, Caetano, Gil – esse é um livro que vou fazer. Tenho um projeto de fazer um livro sobre cinema; um projeto de um livro sobre futebol… enfim, projeto é o que não falta, só não sei se terei tempo

Samuel Amaral
Especial para A União

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